terça-feira, fevereiro 21

Branco

Estou rodeado de branco. Paredes brancas, cama branca, lençóis brancos. Tudo é branco. Perfeitamente branco. Não de um branco qualquer. De branco branco. Não há enfeites esbranquiçados, não há pontos escuros, nem sequer móveis de outra cor. Agora, reparando melhor, nem há móveis sequer. Apenas uma cama, uma pequena mesa-de-cabeceira com um copo cheio em cima e três paredes que consigo ver no meu horizonte. Presumo que atrás de mim exista mais uma. Prefiro não olhar para já. Não quero imaginar que atrás de mim o mundo se feche em mais uma parede branca. Empurro-me para junto do copo e tento perceber pelo cheiro se realmente é água que repousa no copo. É um disparate, penso. Se for água não cheira a absolutamente nada. De qualquer forma, insisto. Óbvio: não cheira. Suponho que seja água, mas não a levo à boca. Não tenho assim tanta sede, nem me apetece ter certeza nenhuma. Aliás, quero efectivamente não ter certezas nenhumas. Essa é a única certeza que tenho. Prefiro a ignorância deste branco. Curiosamente, este pensamento, cospe-me a coincidência da cor que me rodeia ao não querer saber de nada. Realmente o branco é incerteza, é tudo e não é nada. É um mundo puro, perfeito, sem fim, mas impossível. Estarei a sonhar? Pisco o olho à cama branca e reparo que está perfeitamente alinhada junto à parede. Deve ter sido colocada milimetricamente ao centro. A cabeceira encosta-se à parede lisa, mesmo à minha frente, com a mesa do seu lado direito. Acho aquela disposição algo estranha. Não pela correcta centragem do leito, mas porque, afinal, a única distorção neste alinhamento é precisamente a mesa de cabeceira, que se encosta desproporcionadamente nesta parede. Parece que falta uma outra do outro lado da cama branca. Se der dois ou três passos atrás poderei ver melhor, em perspectiva. Tento comandar o pé direito mas detenho-me. E se embater noutra parede? Ou, ainda, se não embater em nada? E neste caso, quantos passos poderei dar mais? Pouso o pé entorpecido. Baralha-me a questão dos passos. Ainda agora tentei perceber se a água era água. Quantos passos terei dado? Começo a ficar impaciente por não conseguir chegar a nenhuma conclusão. Terão sido dois, três? Bolas! Detalhe! Preciso de prestar atenção ao detalhe! Sinto a cara a escorrer suor e o corpo a começar a ficar ligeiramente mais quente. Sei, agora, que estou a começar a ficar desorientado. Tenho de rapidamente encontrar uma solução. Não posso ficar estático nesta posição indefinidamente. Pensando melhor, porque não? Se ficar assim, resolvo a questão. O branco continua branco as três paredes brancas permanecem brancas, a cama não mudará de cor e o copo nem se partirá sequer.

2 comentários:

Anónimo disse...

Uau, estou sem fôlego... li e senti a angústia a desorientação do personagem... muito bom

Anónimo disse...

Muito bem escrito, é intrigante ou melhor inquietante, consegue transportar o leitor para o quarto branco, é como se estivéssemos ao lado do personagem, ou melhor dentro dele, não sei...
Acelera-nos o coração, à medida que damos os passos ao lado do personagem os lábios secam-se-nos e passamos a língua por eles para os humedecer.
O branco ganha vida, assim como a cama, as paredes, a mesa de cabeceira, o copo, a água, que nem sabemos bem se é mesmo água, o branco, apesar de branco é inquieto, mas ao mesmo tempo é calmo, muito calmo... sentimos-nos envolvidos, uma mistura calor e frio, há um sentimento de movimento estático, tudo parece mover-se sem sair do seu lugar só para nos deixar inquietos...
Muito bom, genial!