terça-feira, fevereiro 21
Branco
Decalque
em traços largos sob a cama
e pinceladas breves nos lençóis.
Decalco-te no leito que foi meu
e teu e nosso a cada sopro
para que a tua forma lá se quede
enquanto te perco por um instante.
segunda-feira, fevereiro 20
Véus
Véus caídos soltam os enfeites
de castas semi-puras pensam eles
de brancos aventais em rituais
que cospem das favelas imaginárias
as asas que não se abrem para voar
mas antes fecham cortes de idiotas
que se julgam livres com enfeites
ou após os soltos devaneios
das donzelas que soltam seus cabelos
Vinho
- Os jumentos entornaram o vinho novamente. Bestas! – guturou, entre dentes, um velho estendido no passeio.
A rua era escura, pintada de negro e nem a sombra lá entrava. Havia gente espalhada em cada esquina. Esticavam-se todos em mantas e pedaços de cartão para suportar o frio. As noites ao relento enrijecem os ossos. Passado uns tempos, parece que o frio já nem é frio. Tornamo-nos imunes. Desfrios.
Madrugada
Estridentes imagens esvoaçam nos meus olhos
de fálicos arranjos em teu redor
ao som de quentes embalos de peito aberto
em rítmicos embalos de frases feitas
enquanto soltas o teu pranto já sincero
à madrugada vizinha que lesta se mira
e aperta o regaço de quem a despira.
Tu, és
Sabes que tu não és tu
nem eu
nem nós.
tu nem tu, nem és
nem nada do que és
nem tudo que te és
ou nada em que te vês.
Tu, nem tu és
nem és tu que te és.
És, simplesmente,
a sombra que não te és.
Atilhos
Paredes de negro
em quadros sujos
penduram-se a medo
as botas de mim
descalças do dia
cansadas e gastas
de aço fundidas
as biqueiras desfeitas
que soltam a brita
da tarde de dor
nas costas pesadas
da carga vestir
em idas e voltas
de atilhos caídos
sem preocupação
nem jeito de nós
levam as suas mãos
deixando-os soltos
à sua solidão.
Dedos
Saboreio-te o cheiro que deixaste
em dedos que por ti já passearam
enquanto olho para dentro e vivo seco
as memórias do cheiro que deixaste
nos mesmos dedos que por ti já lá ficaram
no mesmo manto que o teu cheiro vai deixando
mas hoje apenas arde nos meus dedos.
Flashes
Obscenos videos reflectem na retina
em bruscos flashes negros e fumo branco
repetem incessantes momentos já vividos
e renascem imagens obtusas de negro giz
trazendo às costas feras de tiranos
em cargas de força e grunhos de sebo
à medida que o grito cresce e já se estira
do peito que aberto não mais suspira
nos intervalos dos berros que vomita.
Vitrais
Cheios vitrais de cor em janelas sujas e baças pelos tempos respiram a medo a luz que os penetra em bafos raiados de vento e gotas que pedrejam os beirais em murros de soco nos batentes em esperas de dias e dias estáticos quedam-se hirtos em molduras e impávidas esperanças que se quebrem em mil pedaços de fragmentos.
Flor
que pendem soltos em teu regaço
juntam-se em pés de mais unidos
traços de cor de mais amigos
ou flores que já secas ainda se quedam
em ramalhetes de vida e cor do teu amor
que da lembrança apenas resta essa flor.
Sopros
Ri-se para mim e eu pergunto
ou penso em que par se tornam belos
ali, à minha espero enquanto páro
e olho e miro em pé descalço.
Revejo com as mãos que quedam firmes
em jeitos sem saberem que fazer
ou antes sem perdão de não tocarem
a espera que se espera sem saber.
Abraço-te com a boca de olhos fechados
enquanto imagino o teu rubor
e sinto-te as mãos pelo meu jeito
enquanto a boca suga o teu peito.
E páro.
Páro no meu jeito do teu peito
em breves sopros já mirando
em olhos mais que abertos e vibrantes
de te ver encher o peito com ternura
de mãos dadas com o jeito do teu beijo.
Marés
Gosto do mar enquanto sonho
de gente cheio, vibrante, em suas casas
nos invernos frios, revoltados
e sem almas que lhe acompanhem a solidão.
Toques
Sinto-te o cheiro nos meus dedos
em pontas da mão que lá passeia
entre toques e aromas bem sentidos
e suspiros de sorrisos não contidos
em viagens de pele suave em toques quentes
e entretantos de coxas firmes e mais ardentes
nas voltas dos toques leves e penetrantes
do ventre que espumando vai-se soltando
em coros de suspiros largados ao vento
em sussurros mudos e não despidos
do par que fazem com o toque enaltecer
os dedos as pontas e tu de ser.
De beijos
nas voltas da tua boca
entrelaçado em línguas vivas
de vai-vem doce de emoções
e olhos que fechados tudo sentem
em mãos que acompanham a tua pele
e puxam e repousam tudo à volta
entre gritos sem ar e mudos arrepios
à medida que o beijo lento acelera
e as mãos que leves eram tornam garras.
quarta-feira, fevereiro 15
Os pés
Dedos que roem o asfalto
em joanetes de dor e mais ardor
em unhas que reviram cor de dor
dos dedos que passeiam ou se quedam
em pés que calcam o piso seco
gretados de vielas andantes
enrolados em pele seca e decadente.
Soalho
Passeio-me em calcanhares despidos
dentro de mim e mais ninguém
em pontas de pés varridos de lembrança
ou vagas memórias de passos dados
enquanto percorro as tábuas deste leito
antes passadas a vinte dedos
em direcções cegas sempre iguais
de lado postas juntas coladas
às costas que juntas uniam as asas
em passos brandos secos neste soalho.
Descartável
Descartas o agora que se foi
do descartável da vida que te foi
em dias e dias sempre iguais
de viagens iguais de mais e mais
em cuspidos valores de carneiros banais
já que hoje é só presente
amanhã jamais ausente
e o ontem não é mais.
Mim
mesmo quando em mim nada te vi
ou em ti nada revi
e mesmo assim gosto de ti
mais que de mim sem ser a ti
que de mim tudo em ti
não é mais que de mim senão em ti.
Inocência
desse teu ar tão inocente
que sente que sabe do mundo
a frescura de tenra ternura
mas que pende em vago olhar
quando sabe que sente vazios
dos frios encaixes de tudo
e sente que sabe o mais puro
dos olhares de um inocente?
Janelas
sujas e baças pelo tempo
de imagens desfocadas do teu ser
enquanto esperas da alma reviver
as fotografias de presentes inconstantes
embaciadas também elas em teu olhar
que vira e revira nessas janelas.
Sorriso
dos lábios que entreabem o sabor
do beijo que pede a tua língua
entre os que espreitam sorrateiros
e se apoiam à janela
da tua boca enquanto sorri.
terça-feira, fevereiro 14
Bermas
os velhos que fogem de barba suja
e espumam-se as bocas de nojo vazias
em amarelos dentes que mascam tabaco
enquanto se estendem as mãos vazias
ou chapéus que pendem na berma da estrada.
Passos
de teus passos em largos voos
que de caminhos soltos se apressam lestos
de par em par em altos saltos
em vidros de peitos e meias altas
negras vielas que sobem a coxa
de foguetes que ardem da fuga que fez
nos passos que passam a rua calçada
e apressam o passo da tua pegada.
Sombra de mim
ou alma vazia de assombro em teu calor
de brisas na esquina do teu ser
ou apenas o escuro da silhueta que te esvai
em passos largos à minha espera
na luz da rua que te estende
em pedaços frágeis de mim em ti
que da luz da alma te contorna o rosto
em sorrisos escondidos da minha vez
mesmo em frente à sombra em que me vês
Ardor
porque és e não me és
quando tens e não vens
se me és e não te vês.
Amo-te em dias e noites de solidão
em horas e horas de rasgão
do tempo que passa em meu ardor
ou tempo que pára em teu redor
de imagens nua sob a cama
ou de pele despida apenas tu
em esperas e esperas sem senão
de fervores quentes em frescos arrepios
da pele que dos corpos saúda em saudades
enquanto a espera se deleita à tua imagem.
segunda-feira, fevereiro 6
Magias
Magia em movimento aos teus enfeites
de triunfais devaneios em teu furor
na espera de novos rumos em nós quedamos
nos entretantos de mais vezes que nos amamos
ou antes da espera em chama que subjuga
a vontade do querer e não poder
Espera
Enfeito-me o berço de peito vazio
na cama que despes em passos de lã
enquanto te julgas de fado crescida
ou anjo de branco sem asa despida
e jorro-me fel e sonhos soltos
em aguardente de sonho de noites vividas
dos dias que noites retornam em pranto
sem escarro nem jeito nem tanto recanto
Nojo
Espero-te em punhais de ponta manchada
de asco e nojo e verme de vómito
enquanto te trocas das vestes que cais
em mundanas vitórias de trajes iguais
ou escapas de nada em tudo sem cor
de guturais imagens gritando nas bermas
dos cantos de encantos que nunca terás
em saltos que altos apenas te empurram
ao nojo do nojo que enjoando te ves
Leito
em cruas vestes de leitos sós
enquanto a espera se espreita vazia
ou antes não volta dos jeitos e voltas
nos mantos de brisa fresca em tua pele
ou repastos dos teus prazeres
em pedaços soltos de aroma fechado
do traço que traçam as pernas que enjeitas
ou fazes que trazes e jeitos te dás
no lento manto de encanto no leito
que nosso já foi e para sempre terá
o cheiro que nosso teima em não fugir
quinta-feira, fevereiro 2
Assobiam-se
dos enxovais secos e gastos
que passam desgostos rotos e sós
em assobios enrolados
desgostos passados
e piscar de olhos ao luar.
quarta-feira, fevereiro 1
Sinal
Jamais havia dado por ele!
Curioso...
Pende-te escuro e seco, como se fosse gritar,
correr, pular e berrar, aos mais altos recantos do ser!
Já o tinhas?
Como antes nunca o vi?!
Perfeito
Aquele imundo antro de estupidez atroz que daqui se vê?
Sabes?
Perfeito.
Chão
atrás do vento
Quantos?
Dedos há que não apontam
nem sequer sabem pender
entrelaçam-se em vergonha
Já?
E os olhos que não abrem?
Nem sequer a muito custo!
Atrás do vento segues tu
nem sentes que sentes o ar do vento
ao desbravar-te em caminhos de sopro
enquanto te levantam os pés do chão.
Espera
sigo de frente o teu rasto vazio
em pegadas secas nas margens húmidas
esperando encontrar-te lá de noite
na infinita imagem do teu olhar
enquanto o meu pranto me acompanha
par em par o teu sentido
ou a espera de te encontrar.
Sabes?
Tu, sim, tu, sabes quanto me és?
Sabes?
E quanto de ti em mim respiras e suspiras
de tanto sufoco trespassado
ou vagas memórias de longos anos
das vidas vividas e mais sofridas
de tempos mortos e mortos em vida
ou vidas que foram mas nunca resistem
em tempos do tempo que nunca se apaga
em abraços já dados e mais por viver
em beijos de face ou soltos no vento
Sabes?
Que pedaços de mim a ti te pertencem
sem dono nem laços que a ti te condenem
nem grilhos que prendam a dor da distância
mas saibam de sempre a ponte que liga
em margens de frente com fios que atam
as luzes que unem as almas para sempre
Sabes?
Sabes, tu, mãe?
Ais e ais
demais de mais em ais e ais
de tais ou ais e mais que vais
em sais de mais e muito mais
ou ais e ais de apenas ais.