sábado, outubro 29

Roubem-me

Roubem-me os decotes e os espartilhos
tirem-me o fôlego de um sufoco
afastem-me de tudo o que me suporta
esganem-me em colares de contas e meias voltas
mas deixem-me gritar bem alto
que do alto do berro ninguém me tira.

quarta-feira, outubro 26

Fumo

Fumo que fumo
e fumando me dou
enquanto fumo e refumo
do fumo que vou fumando
antes e depois que vai entrando
o fumo que fumo e vou fumando
em bafos de fumo fumado
nos intervalos que vou pensando.

Depósitos

Vendavais levantam o frio estrume
que seco se empilha nos beirais
em fétidos odores de cor escura
de habitações livres aos insectos
que repousam em intervalos esvoaçantes
à espera do sossego e calmaria
dos ventos que se vão e não repousem
e se empilhem em nojos podres de dejectos
já pois espalhados nos recantos
os negros sujos fetos depositados
descaiando as paredes já não brancas.

terça-feira, outubro 25

Fogueiras

Guardo-te o olhar em dias frios
quando miras o lume aceso da fogueira
ou apenas te vês para dentro em olhos secos
ao esperares por dias quentes já sem mantos
e relembres o nu dos corpos que se abraçam
nas camas frias e despidas de saudades.

Sal

Do sal que pincelo em tua boca
guardo reflexos de diamante em águas brandas
como sais que brilham entre iguais
dos ais que vais soltando e não guardando
aos braços que vão colando em solto manto
das línguas que acordadas se vão juntando.

segunda-feira, outubro 17

Lutas

Faz-te em lutas hábeis de hirta espada
em guerras de vozes e gritos mudos
de punhais frios de ferro forjados
ou argumentos despidos de preconceitos
com a força de mil-homens na palavra
e trespassa o ventre dos iguais
que em tudo ou nada serão jamais
a espada e adaga de breve nada.

Planos

Quando voas que levas?
Quando voas que voas?
E se voas, que levas?
Nas asas da tua mão
ou nas penas do teu cordão
Que levas tu quando voas?
E te soltas da solidão
planando, não batendo
descansando de forçar
de tanto doer de voar
Que sonhas tu quando voas?

Inverno

Amanhas-te em cobertores grossos de Invernos passados
aos sabores de lenha húmida trepidante
e copos altos vazios de vinho
enquanto esperas em carpetes de pêlo fofo
nua de roupa, vestida de encanto
o frio que passe e te traga ao teu pranto
quem mais tu queres que se enrosque a teu lado.

Esperando

Vejo-me em pedaços secos de hóstias queimadas
regado de vinho morno e broa quente
de dias e dias de tempos idos
tão duros mastigam os dentes que caem
do tempo da espera de dias melhores.

Bêbados

Borbulham-se e espumam-se os demais
em decadentes ritmos de braços no ar
nos beirais das vielas sujas de nojo
em copos partidos e garrafas vazias
ao som dos bêbados que se encostam
em guturais golfadas de olhar escuro
à medida que o copo se vai
e a barba grande continua a crescer.

Sabor

Sais de mim por teu suspiro
em suaves passos de nuvens soltas
enquanto de ti saem ais
e de mim o teu sabor.
Ficam no meio os meus abraços
os beijos e arfantes olhares
nos teus encantos ao ritmo
dos corpos que a beijar se ficaram.

Abraços

Beijos que beijam em beijos de mel
de bocas em bocas coladas ao céu
com braços e abraços em jeitos perfeitos
nos corpos que colam e se beijam assim
na pele da pele, dos peitos no peito
ou abraços de pernas em braços que juntam
e olhares que miram sem estarem abertos
as almas que beijam sem beijo nem boca.

Enforcados

Teus turbantes pendem aos ventos
de enforcados nós em ramos presos
em bailados suaves de brisas frescas
aos tempos secos da terra que espera.
Quedam-se mirando os abutres ao longe
que da espera calma se fazem ter
em pacientes olhares de bicos soltos
ao nó que apertando vai mais matando.

domingo, outubro 2

Moinho

Nos moinhos bailam ventos
em suas fraldas já rasgadas
velhas e sujas pelos tempos
e suas mós já não desfazem
o tempo que rodava sem descanso
no olho seco picado de pó.

Vielas

Afagam-se incertezas em viagens matinais
por ruas e avenidas de alcatrão posto
em ritmos despertos de sonhos brandos
enquanto se espera o infinito
além da dor da tua espera.
Colam-se retalhos velhos a novos rumos
na esperança de novos horizontes
mas a esquina que vem dobrando
não acompanha o que é preciso.
Fogem-se as vielas por nossas solas
gastas e rotas das calçadas
em breves passos já cansados
até ao próximo pouso na estrada.