terça-feira, maio 8

Pai

Sinto saudades, sabes? Saudades tuas, do teu cheiro, do teu abraço, da tua voz que nunca ouvi. Saudades de seres em mim o que nunca vi ou senti. Saudades dos olhos que não conheço, de cores ouvidas ou conhecidas em retratos velhos. Sinto-te falta em mim. Nas longas conversas que nunca tivemos, nos conselhos que nunca me deste. Sinto falta de ti. Sinto a falta desse abraço vazio de palavras, no silêncio do momento, em que tudo é dito de olhos fechados e lábios cerrados. Sinto a falta desse colo, do teu colo. Não de um colo qualquer, não. Desse, do teu.
Também sinto falta que me ralhes, que me chames à razão. Apesar de nunca o teres feito, tenho saudades disso mesmo. Gostava de reviver os momentos que nunca vivemos, nas horas de diálogos nunca tidos, em dias nunca vividos. Mesmo sem ser à lareira que nunca tivemos, ou no carro em que nunca me ensinaste a conduzir, sinto a falta das tuas ideias, da tua opinião.
Sabes, sinto-te falta sem nunca te ter tido para mim.
E tenho saudades tuas, muitas saudades tuas pai.

6 comentários:

Anónimo disse...

És GRANDE!!! Um ser maravilhoso!
Sou, realmente, um ser privilegiado*

Anónimo disse...

É com as lágrimas nos olhos que leio este maravilhoso texto... eu tive tudo isso, tive o melhor Pai do mundo durante 30 anos, ou melhor, tenho, porque ele continua bem vivo dentro de mim...
Tenho a certeza que o seu também era o melhor Pai do mundo, pois era o seu.
É triste este seu texto, mas é lindo pelo sentimento que contém pelas memórias não vividas que tem, que estão aí dentro do seu peito. Esse amor que sente é de uma beleza que nos transcende, que no ultrapassa na nossa existência material e tantas vezes fútil e mesquinha. O seu Pai é, com certeza, um homem orgulhoso do seu filho.

Anónimo disse...

A sua escrita mexe profundamente comigo, há algo nela que não me deixa indiferente... tem o dom de tocar no nosso íntimo, de chegar a sítios que por vezes não queremos ir, mas aos quais é essencial ir... para que nos possamos encontrar, zangar connosco mesmos, para também connosco fazermos as pazes... aqui aprendem-se lições sem nos serem dadas, não há uma moral da história, simplesmente há histórias, histórias vividas, histórias pensadas, histórias desejadas, histórias indesejadas, histórias sentidas...
Aqui sinto que cresço, ainda que por vezes me faça sentir tão pequenina. Parabéns por tão maravilhosa escrita. Obrigada pela sensibilidade com que escreve e pela "falta" dela também.

Fatima Lopes disse...

A nostalgia de ter pedido o meu querido pai muito cedo, traz-me lembranças de que tive um PAI em todo o sentido da palavra.
Quando penso em ti PAI, uma dor aguda invade o meu peito, pois foste o Melhor PAI do mundo! Adoro-te para todo o sempre...

Raquel Amaral disse...

Bonito.. gosto muito.

Carla Monteiro disse...

Verdadeiramente emocionante. Eu sinto essa falta toda, do que tive, do que não tenho mais, mas sei que continua aqui comigo!!! Obrigada pelas tuas deliciosas palavras!